16. Análise sociológica das profissões

A palavra “profissão”, no Brasil, costuma ser usada, em termos populares, de um modo quase indiferente. É comum referir-se a qualquer trabalho ou atividade como uma “profissão”.

Quando, porém, a palavra vira uma qualidade, passa a ter contornos mais próprios. Muitas vezes ouvimos uma pessoa pedindo a outra para ser “profissional” ou agir com “profissionalismo”. Também podemos elogiar o “profissionalismo” de um trabalhador.

Nesses últimos usos, a palavra indica algumas características que o trabalhador possui ou deve possuir. Entre outras, podemos pensar no modo como executa sua atividade (com dedicação, estudo, afinco…) e no modo como trata seus colegas e clientes (respeito, distanciamento…).

Na sociologia das profissões, por sua vez, a palavra é usada para diferenciar um tipo de trabalho de outros. Vamos, aqui, apresentar as características da categoria sociológica profissão e problematizá-la a partir de tensões decorrentes dessas características e das transformações sociais do presente.

Primeiramente, registremos um termo neutro, capaz de designar qualquer atividade remunerada desenvolvida no mercado por uma pessoa: ocupação. Assim, em qualquer mercado existem várias ocupações (trabalhos, empregos, profissões…). Nem toda ocupação é uma profissão; toda profissão é uma ocupação. Surge, desse modo, a questão sociológica: quando uma ocupação se torna uma profissão?

A partir da obra de FLEXNER (1915), os primeiros estudiosos do tema indicam que, para se tornar uma profissão, a ocupação:

  1. deve ser intelectual, ou seja, sua atividade exige um conhecimento próprio (expertise), possuído pelo trabalhador;
  2. esse conhecimento é mais prático que teórico, consistindo em um conjunto de técnicas para a resolução de problemas;
  3. embora tal conhecimento possa ser aprendido, não se converte em uma mera rotina, exigindo sempre uma individualização do trabalhador no momento da atuação (advinda da experiência, do talento, do instinto);
  4. além disso, a profissão deve ser prestada com grande responsabilidade pessoal, exigindo o respeito a padrões éticos de desempenho e prestação do serviço;
  5. e deve motivada pelo altruísmo, vendo-se o trabalhador como alguém atuando pelo bem da sociedade ;
  6. há, por fim, uma forte organização do grupo que desempenha a atividade.

A caracterização é criticada por, conforme os sociólogos posteriores, acreditar no papel que o grupo profissional diz desempenhar. A partir, sobretudo, da obra de FREIDSON, constata-se que não há elementos fixos no conceito de profissão, sendo essa categoria sujeita às transformações sociais.

Em termos genéricos, pode-se afirmar que a profissão existirá se um grupo profissional obtiver status social (reconhecimento, prestígio, riqueza…) e autonomia ocupacional.

profissão - ocupaçãoA autonomia é obtida com a organização do grupo em associações ou entidades, que passam a atuar politicamente pelo seu fortalecimento, e pela aquisição do controle de:

  1. acesso ao mercado – o grupo define quem pode ou não atuar na profissão;
  2. padrões de prestação – o grupo estabelece as formas consideradas corretas de atuação para a resolução de cada tipo de problema relativo à atividade e cada profissional em si, com base nesses padrões, decide o que fazer, como e quando desempenhar a atividade;
  3. conhecimento – o grupo interfere na consolidação científica das técnicas necessárias para o desenvolvimento de suas atividades, exige que o candidato a membro da profissão receba uma formação superior ligada a essa ciência e busca controlar o acesso a ela.
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